Taboo — uma plataforma de sexualidade feminina feita por e para mulheres

Desenvolvendo uma solução que auxilia mulheres a abordarem desejos e fetiches com seus parceiros

Taboo — logotipo

Brief: identificar um problema que você ou alguém que você conhece esteja enfrentando e criar uma solução de acordo com sua visão, pesquisa e descobertas durante o processo de UX/UI design.
Entregáveis: versões mobile e desktop da solução
Design Sprint: 12 dias
Time: Bárbara Accioly e eu

Solução: Taboo, uma plataforma que tem o intuito de auxiliar mulheres em relacionamento com homens a se comunicarem sobre sexualidade e compreenderem seus desejos.

Mulher com a boca tapada — Foto por NOTAVANDAL no Unsplash

Infelizmente ainda vivemos em uma sociedade na qual a sexualidade feminina é considerada um tabu, como consequência do machismo e do patriarcado. Assim, quando mulheres abordam esse assunto, muitas vezes são enxergadas de forma pejorativa.

Até o século 19, não era esperado que mulheres sentissem desejo, muito menos prazer — isso era reservado aos homens e prostitutas.

Apesar disso, as coisas estão mudando e as mulheres estão se empoderando cada vez mais em relação à sexualidade, então esse é um assunto que vem se tornando cada vez mais relevante e por isso optamos por investigá-lo.

Processo de descoberta

Assim, iniciamos nossa jornada por meio de uma extensa pesquisa que contou com as seguintes etapas: questionário (a), pesquisa de mesa (b) e entrevistas qualitativas (c), a fim de entendermos o cenário de perspectivas distintas.

a. Questionário

Elaboramos um questionário com 21 perguntas sobre diversos temas que envolvem sexualidade feminina, das quais dez eram abertas (ou seja, as voluntárias podiam escrever as próprias respostas). Os principais temas que abordamos foram:

  • Relacionamento com o(a) parceiro(a)
  • Orgasmo e masturbação
  • Acessórios e brinquedos eróticos
  • Relações sexuais
  • Percepções sobre o sexo

A partir disso, analisamos todos os dados coletados por meio de quadros de afinidade e de cruzamento de informações e esses foram os principais insights:

  1. A esfera sexual influencia outras áreas da vida das mulheres.
Diagrama: influência do sexo em outras áreas da vida das mulheres

2. Existem mais de 27 variáveis que afetam o orgasmo feminino e as mais citadas foram relativas a estímulos mentais (sentir-se bonita, sentir-se confortável, “entregar-se” na hora do sexo).

3. Mulheres que estão em um relacionamento com homens relataram ter mais dificuldade de conversar sobre sexo com seus parceiros.

4. Dentro da esfera de comunicação, os assuntos mais difíceis de serem abordados foram, respectivamente, “desejos e fetiches” e “limites e insatisfações”, como mostra o gráfico abaixo:

Gráfico: assuntos mais difíceis de serem abordados x número de menções

Assim, optamos por focar nas questões relativas à comunicação entre casais para diminuir o escopo, uma vez que foi o tópico que mais se sobressaiu. Para isso, iniciamos a pesquisa de mesa e as entrevistas qualitativas para coletar dados a fim de investigar mais a fundo essa problemática.

b. Pesquisa de mesa

Durante a pesquisa de mesa, encontramos alguns dados que corroboraram nossos achados com o questionário:

Segundo uma pesquisa feita pela Prazerela com 1370 mulheres de todas as regiões do Brasil em 2018, apenas 43% das entrevistadas conversam abertamente sobre sexo com seus parceiros.

Além disso, também encontramos uma pesquisa feita pela Cosmopolitan UK em 2021 com aproximadamente 2300 mulheres, na qual 39% delas afirmou raramente conversar sobre variáveis relativas ao sexo com o(a) parceiro(a) e 15% delas afirmou nunca ter esse tipo de diálogo (no cenário após a relação sexual), como evidenciado no diagrama:

Diagrama: porcentagem de mulheres que raramente conversam ou não conversam sobre sexo com seus parceiros. Reprodução: Cosmopolitan

c. Entrevistas qualitativas

Fizemos também cinco entrevistas com foco na questão da sexualidade na relação com o parceiro para entender o porquê da dificuldade de comunicação e quais dilemas estão envolvidos nisso. Após a análise das entrevistas, percebemos que as mulheres em geral se sentem desconfortáveis de conversar sobre sexualidade pelos seguintes motivos:

  • Medo de julgamento e vergonha de expor suas fantasias
  • Sentimento de culpa
  • Priorização do prazer masculino imposta pela sociedade
  • Sentem que estão sendo “chatas” e não querem incomodar o parceiro

Se não houver comunicação antes e durante (o sexo), é complicado. (…) mulheres normalmente dizem que não gostam de falar durante o sexo e que a pessoa tem que entender porque o corpo fala, todavia nossos corpos são ensinados a mentir prazer, fingir orgasmo e ser passiva pro “homem”. Então se não quebrarmos essa relação e nos comunicarmos, acho que isso torna tudo muito difícil. — (Entrevistada)

Acho que algo que vale muito a pena ser explorado é a insegurança das mulheres. Essa falta de segurança com o corpo e o distúrbio de prioridade por conta da priorização do prazer masculino faz com que a gente se sinta inibida de abordar assuntos de sexualidade. — (Entrevistada)

Levando em consideração todos os dados que obtivemos e analisamos, partimos para a definição da nossa persona: a Ana.

Ana e suas características

Além disso, com o objetivo de mapear as oportunidades de design, desenvolvemos a jornada da Ana:

Jornada da usuária

Por meio dessa jornada, pudemos observar os pontos de dor da usuária em vermelho, que refletem sua frustração em não conseguir conversar sobre sexualidade com seu parceiro. Assim, optamos por focar nesses pontos para declarar o problema encontrado:

Mulheres que estão em relacionamento com homens têm dificuldade de conversar com eles sobre seus desejos e fantasias por medo de serem julgadas.

Ideação

Nessa etapa, utilizamos o seguinte questionamento como guia durante todo o processo de ideação: como auxiliar essas mulheres a abordar o assunto de desejos e fetiches com seus parceiros?

Para responder essa pergunta, foi preciso dar um passo pra trás e se perguntar, primeiramente, o porquê de as mulheres não falarem sobre esse assunto.

Afinal, por que Ana não se sente confortável para falar?

Fizemos mais algumas pesquisas e descobrimos que esse medo vem de uma sociedade machista na qual a mulher é julgada o tempo todo, principalmente quando fala sobre o próprio prazer. Uma prova disso é que grande parte do conteúdos sobre sexo é produzido voltado ao prazer masculino em detrimento do feminino. Assim, o prazer da mulher é colocado constantemente em segundo plano.

Por conta disso, esse medo vai sendo cada vez mais alimentado, o que faz com que a mulher se sinta insegura sobre os próprios desejos e muitas vezes também se sinta culpada (como no caso de Ana), prejudicando sua comunicação com o parceiro. Além disso, toda essa insegurança também pode atrapalhar sua vida sexual, impondo barreiras para sua satisfação sexual.

Aqui está um trecho de uma entrevista com a psicóloga Thayz Athayde, na qual ela comenta sobre os efeitos da repressão da sexualidade feminina observados na clínica:

“A repressão à sexualidade feminina é tão violenta que muitas vezes o sofrimento sexual nem sequer aparece na clínica. Para que o sofrimento sexual apareça, é preciso primeiro pensar na própria sexualidade e esse exercício de olhar para si já é algo difícil para as mulheres.”

Portanto, para resolver o problema de comunicação entre mulheres e seus parceiros, chegamos à conclusão de que isso está profundamente relacionado a outras esferas da vida da mulher: autoconfiança, auto estima e compreensão e normalização dos próprios desejos.

Diagrama: fatores que influenciam a comunicação das mulheres com os parceiros

Pensando nisso, fizemos uma sessão de brainstorm em conjunto com outras colegas designers (Brenaibiapina, Luisa Koyama e Nicolly Dario), uma vez que estávamos buscando uma solução feita por mulheres e para mulheres.

Analisamos as ideias trazidas durante sessão por meio do quadro de afinidades, como pode ser visto abaixo:

Quadro de afinidades

Por fim, optamos por focar em trabalhar com conteúdos sobre sexualidade feminina e comunidade de mulheres.

Benchmarking

Assim, fizemos uma análise de competidores para entender como está o mercado atualmente quando se trata de conteúdos voltados à sexualidade feminina e encontramos três referências principais que serviram de inspiração para o desenvolvimento de nossa solução:

  • Share Your Sex
  • Lover
  • OMG Yes
Quadro de análise de competidores

Essas soluções focam tanto na parte de conteúdo sobre sexualidade quanto na interação e troca de experiências entre mulheres, porém não abordam de forma tão específica o tópico da comunicação com o parceiro. Dessa forma, decidimos incorporar esse último tópico no desenvolvimento de nossa solução.

Proposta de solução

Pensando em tudo isso, buscamos desenvolver uma solução que atacasse os principal ponto de dor encontrado: a dificuldade de comunicação com o parceiro. Para isso, selecionamos as seguintes features:

  1. Conteúdos sobre desejos e fetiches: desenvolvidos por e para mulheres, com o intuito de normalizar os desejos e práticas sexuais, fazendo com que a usuária entre em contato com esse conteúdo e se sinta mais confortável.
  2. Grupo de mulheres: comunidade composta somente por mulheres na qual é possível compartilhar experiências com o intuito de normalizar a sexualidade feminina e promover a identificação das usuárias com outras mulheres que passam pelos mesmo problemas. Assim, ela perceberá que não está sozinha e que essas inseguranças são mais comuns do que imaginamos.
  3. Conteúdo sobre comunicação: também desenvolvido por e para mulheres, traz dicas e informações sobre como abordar esse assunto com o parceiro de forma assertiva, com o intuito de trazer mais confiança para a usuária quando ela for se comunicar com o parceiro.

Escolhemos essas três features porque elas se complementam e integram toda a jornada de nossa usuária. Afinal, para que ela consiga abordar assuntos de sexualidade com seu parceiro, foi preciso atacar pontos anteriores à etapa da comunicação em si, que estão intimamente relacionados às questões culturais da sociedade e que afetam a autoconfiança, auto estima e compreensão e normalização dos próprios desejos das mulheres.

Por isso, nosso problema pode ser classificado como um wicked problem, ou seja, um “problema cabeludo”, que é muito complexo e que abre espaço para diversas formas de solução.

Desse modo, declaramos a seguinte hipótese:

Acreditamos que apresentando conteúdos informativos sobre desejos, fetiches e comunicação com o parceiro, além de um grupo só de mulheres onde elas possam trocar experiências, iremos contribuir com a normalização gradual dessas práticas sexuais e empoderar essa mulher para que ela consiga abordar esse assunto com o parceiro.

Poderemos medir o sucesso da solução por meio de pesquisas de satisfação e número de cadastros.

Em seguida, montamos o fluxo de nossa usuária envolvendo as três features escolhidas:

Fluxo da usuária

Além disso, realizamos um card sorting com dez voluntárias, por meio da ferramenta Optimal Workshop, para nos auxiliar a definir a nomenclatura das categorias de conteúdos e também desenvolver a arquitetura de informação de nossa solução.

Protótipo mid-fi

Assim, desenvolvemos o protótipo em média fidelidade com as seguintes telas:

Telas do protótipo mid-fi — primeira versão

Em seguida, realizamos testes de conceito e usabilidade com cinco voluntárias e os principais pontos de iteração foram:

  • As usuárias ficaram confusas sobre o objetivo principal da solução
  • O fluxo não estava claro para três das cinco voluntárias
  • Alguns dos ícones presentes na tab bar e nos textos não eram intuitivos
  • O momento de entrada no grupo não havia ficado claro

Após as iterações, esse foi o resultado:

Telas do protótipo mid-fi — segunda versão
  • Diminuímos o número de ícones e optamos por utilizar aqueles que mais faziam parte do modelo mental das pessoas
  • Ressaltamos a hierarquia de alguns textos e evidenciamos os títulos para guiar o fluxo das usuárias

Branding

E foi nesse ponto que nasceu o Taboo. Escolhemos esse nome por se tratar de um trocadilho com a palavra “tabu”, que remete à sexualidade feminina na atualidade.

Com o objetivo de definir o mood da marca, buscamos referências em diversas plataformas como Dribbble, Mobbin, Pinterest e Behance. Curiosamente, a maioria das inspirações voltadas às mulheres que encontramos seguiam um padrão de estilo e de cores (sempre com diferentes tonalidades de rosa), então optamos por tentar uma abordagem diferente: nos inspiramos em aplicativos de bem-estar para definir o moodboard.

Moodboard

Com isso, elaboramos o style tile da nossa solução:

Taboo — Style tile

Cores: escolhemos uma paleta com poucas cores e optamos por deixar a interface bem limpa, uma vez que a solução tem muitas imagens e informações. Também pensamos em uma paleta que não cansasse tanto a visão uma vez que temos bastante conteúdos com texto.

Tipografia: optamos pela Roboto, que é uma tipografia leve e de fácil leitura, uma vez que temos bastante informação nas telas.

Palavras-chave: escolhemos as palavras clean, acolhedora e simples, que transmitem o mood da marca.

Protótipo hi-fi

A partir disso, desenvolvemos o protótipo em alta fidelidade e, após alguns ajustes, esse foi o resultado:

Telas do protótipo hi-fi

Os principais ajustes foram:

  • Mudança do estilo de ícones da tab bar com o intuito de conversar mais com o restante do layout
  • Adição de textos abaixo dos ícones da tab bar

Você pode checar o protótipo interativo por aqui (clique em options no canto superior direito e selecione “Fit — scale down to fit” para melhor visualização):

Protótipo hi-fi na versão mobile

Também desenvolvemos a versão desktop, que você pode acessar logo abaixo (clique em options no canto superior direito e selecione "Fit — scale down to fit" para melhor visualização):

Protótipo hi-fi na versão desktop

Próximos passos

  • Ampliação da gama de conteúdos
  • Assistente virtual que chame a atenção para conteúdos de acordo com a interação da usuária
  • Criação de um perfil para a usuária, no qual constará a lista de conteúdos favoritados e salvos

Obrigada por ter tirado um tempinho para essa leitura (:

Se tiver algum comentário ou sugestão sinta-se à vontade!

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UX/UI Designer student with a background in Psychology and Cognitive Sciences enthusiastic

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Ana Luiza Fontana

Ana Luiza Fontana

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